O coronavírus da pecuária

O coronavírus da pecuária

As mortes humanas já são 3.831, mas quando você ouvir este podcast o número será maior. E na pecuária? Estima-se que a peste suína africana causou a more ou o abate sanitário de metade do rebanho suíno mundial: mais de 400 milhões de porcos. Como se não fosse bastante, no finalzinho de janeiro, o retorno de diferentes cepas da gripe aviária causou a morte ou abate sanitário de mais de 100 mil aves na China. A gripe aviária tem potencial para ser outro imenso problema de sanidade animal global.

Os humanos, os suínos e as aves já estão afetados. E o boi? Vai sair ileso?

Você está na Agroconversa com Petterson Vale. No papo de hoje, eu aproveito o momento para dizer que precisamos ficar mais atentos à defesa sanitária da bovinocultura, pois ela está ameaçada.

A crise sanitária animal já é absolutamente imensa. As repercussões da peste suína começam na economia e segurança alimentar dos chineses e, por meio de uma cadeia de efeitos indiretos, atingem o preço da arroba no interior do Brasil. A situação para o mercado bovino é potencialmente boa, e por isso mesmo nós precisamos, mais do que nunca, ficar atentos.

Só para lembrar: em 2001, no Reino Unido, uma epidemia de febre aftosa vitimou um total de 6 milhões de animais, entre os quais uma grande quantidade de bovinos. Quando a praga chega no boi, ela avança rápido.

Talvez seja pensando nisso que a Confederação Nacional da Agricultura, CNA, acaba de lançar um “Desafio tecnológico da rastreabilidade bovina”. A ideia é estimular startups a fazerem avançar a tecnologia de rastreabilidade individualizada de animais.

A tecnologia é um componente importante,mas não o único, do desafio da rastreabilidade bovina, que por sua vez, é essencial para garantir a sanidade animal. O caso dos Estados Unidos é um exemplo. Lá, o governo Federal tentou, no ano passado, obrigar os pecuaristas a rastrearem eletronicamente cada animal bovino com mais de 18 meses. Isso seria uma grande evolução com relação ao sistema Federal de hoje, que só rastreia movimentos interestaduais de animais acima de 18 meses. Ao mesmo tempo, o custo para os pecuaristas seria elevado. No segundo semestre, uma associação de pecuaristas processou o governo Federal, e na sequência a USDA, correspondente ao nosso MAPA, retrocedeu e retirou a obrigação do rastreamento eletrônico individual. Além do custo da tecnologia, pesou também a questão jurisdicional, pois os americanos não gostam muito de legislações Federais que se sobrepõem às regras estaduais.

Conclusão para o boi brasileiro: passar do atual sistema, baseado nas Guias de Trânsito Animais (GTAs), para um sistema eletrônico que cubra todo o rebanho é um desafio para anos.

Mesmo assim, por enquanto, a bovinocultura está livre de ameaças sanitárias tanto nos EUA quanto no Brasil.

Mas atenção: o nosso sistema de sanidade bovina – o SUS dos bois, está sob ataque. Este é o ponto central da conversa de hoje.

Já faz alguns anos que um grupo de ambientalistas vem insistindo na ideia de usar sistematicamente as GTAs para punir desmatamento. Eles querem que funcione assim: se você não desmatou, mas comprou gado de uma propriedade que desmatou, você fica bloqueado para vender aos frigoríficos. Para saberem que você comprou gado de uma propriedade que desmatou, eles têm usado as GTAs.

Sabe o que vai acontecer se a GTA passar a ter o uso de guia verde? O sistema brasileiro de rastreabilidade bovina vai se tornar menos confiável. O motivo é óbvio: quem desmatou vai ludibriar o sistema para continuar vendendo o seu gado. Consequência: o o risco sanitário aumenta.

Aqueles que advogam pela transformação da GTA em uma guia verde querem que o Brasil seja cobaia. Não se faz isso em país sério. Nos Estados Unidos, o sistema de rastreabilidade animal – chamado ADT, Animal Disease Traceability – não é usado para fins ambientais. Na França, a base de données nationale d’identification des animaux (DNIA), que rastreia cada animal por meio de um brinco com um código de dez dígitos, também não é usada para fins ambientais. E mesmo no Brasil, não há sequer previsão legal para o uso das GTAs como guias verdes.

Usar a GTA como guia verde seria como dizer aos infectados pelo coronavírus que se eles derem entrada no hospital para se tratar, os dados do cadastro serão compartilhados com o Ibama ou com a Receita Federal para investigação. Você iria pensar duas vezes antes de fornecerem as suas informações de saúde, não iria? É por isso que informações sanitários jamais devem ser usadas para outros fins.

O que acontece se o sistema de rastreabilidade bovina brasileiro for enfraquecido?

Primeiro, cresce o risco de novas epidemias animais. As consequências você conhece: depois de ter surgido na China, a peste suína se espalhou para outros países, e o Vietnã teve que abater outros tantos milhões de porcos. Um prejuízo incalculável, mas que sem sombra de dúvidas não fica abaixo das centenas de bilhões de dólares. E mais: a morte de 400 milhões de porcos no intervalo de alguns meses representa também um desafio ambiental, não é mesmo?

Segundo, descuidar das epidemias animais pode significar descuidar das epidemias humanas. Você se lembra onde surgiu o coronavírus? Sim, trata-se de uma zoonose, doença que se transmite do animal para o ser humano. Ainda não se sabe qual foi o animal que originou o coronavírus, mas o candidato forte é o Pangolim. Esse bichinho, que pode lembrar um tatu, é muito traficado da África para a Ásia. Como o tráfico não respeita regras sanitárias, a carne de Pangolim estava contaminada com uma zoonose.

Recapitulando: as deficiência da rastreabilidade dos Pangolins é, provavelmente, a raiz do coronavírus. Ou seja, enfraquecer o sistema de rastreabilidade animal não só causa danos diretos ao PIB, emprego e segurança alimentar, mas também podem fazer surgir novas zoonoses. As novas zoonoses, como Sars e coronavírus, têm efeito devastador.

Voltando ao Brasil: não tem lógica tolerarmos que o sistema de rastreabilidade bovina, voltado a garantir a saúde animal, de um país com 215 milhões de cabeças de gado, seja enfraquecido. Mas ele está sendo enfraquecido pelo vazamento de dados das GTAs.

Talvez você discorde. Talvez você ache que, por algum passe de mágica, objetivos ambientais nunca podem causar danos à saúde pública. Só que não é bem assim.

No dia 1o de janeiro deste ano, o chinês Yanzhong Huang publicou um artigo de opinião no The New York Times. Huang escreveu o seguinte sobre a peste suína: “Pode parecer bizarro, mas um dos principais motivos porque a doença se disseminou tão rapidamente foi uma medida do governo chinês para combater a poluição”.

Como é que é? Regulações voltadas a proteger o meio ambiente – no caso, os mananciais chineses que estavam sendo poluídos por excrementos da criação intensiva de porcos – podem ter contribuído para a rápida disseminação da febre suína?

É o que explica o artigo publicado no New York Times (vale a pena ler).

Portanto, se você, ouvinte, anda preocupado com o coronavírus, vai um alerta. Precisamos proteger a sanidade dos nossos bovinos de ideias equivocadas. Com isso, estaremos protegendo o nosso alimento, a nossa economia, e a nossa saúde. Precisamos isolar o sistema de rastreabilidade bovina, como já acontece nos Estados Unidos. As Guias de Trânsito Animal não devem ser usadas como guias verdes.

A única forma de garantirmos esse tipo de proteção ao nosso sistema de sanidade bovina é passando legislação Federal que isole as GTAs das investidas de quem não entende de sanidade animal. Eu já enviei essa proposta de legislação a um Senador. Mas podemos fazer muito mais.

A proteção do meio ambiente é importantíssima e deve ser feita de maneira série e responsável.

Se você se interessou e quer saber mais, é só me escrever um e-mail.

Um abraço.