O PIB da pecuária é incógnita?

O CEPEA/Esalq/CNA acaba de anunciar que o PIB da pecuária, que inclui carne e leite, bovinos, bubalinos, ovinos, etc, subiu 9% de Jan a maio de 2020, equivalente a R$ 48 bilhões. Isso dá um PIB estimado de ~ R$ 533 bilhões em Dez 2019.

pecuária Brasil

Por outro lado, a ABIEC/Athenagro, em seu relatório anual, indica que o PIB da pecuária bovina de corte foi de R$ 618 bilhões em 2019.

Se o número da Abiec estiver certo, o número da Esalq/CNA estará extremamente subestimado. Se o número da Esalq estiver certo, então o número da Abiec/Athenagro estará altamente superestimado.

O mais provável é que haja diferenças metodológicas consideráveis. Esses dados envolvem contas complexas usando sistema de contas nacionais e matriz de insumo-produto. Da última vez que eu procurei, encontrei um documento antigo do CEPEA que detalhava o método, mas não encontrei nada razoavelmente detalhado da Athenagro.

Entender o verdadeiro tamanho do nosso agronegócio e da nossa pecuária é fundamental. De que forma a pecuária contribui para o país? Quanto a pecuária paga de impostos? São questões fortemente relacionadas ao tamanho do PIB e que precisam ser melhor esclarecidas.

Churrasco de Tambaqui

Churrasco de Tambaqui



O momento é de preocupação, e nessas horas o Brasil sério precisa entrar em ação. É por isso que o grande Festival do Tambaqui da Amazônia, que seria realizado em São Paulo no dia 28 deste mês, foi cancelado. Um evento que prometia levantar a bola do peixe de Rondônia. Infelizmente, os paulistanos terão que esperar.

Ao ver a notícia, me veio uma pergunta à cabeça: será que esses eventos têm um real impacto sobre o consumidor?

A Agroconversa de hoje é sobre Marketing do peixe.

Os paulistas falam muito pouco de peixe: para cada 50 vezes que um rondoniense ou amazonense fala de peixe, o paulista só fala uma vez. Quando falam, os paulistas falam de Tilápia. Para cada sete vezes que falam de Tilápia, os paulistas falam de Tambaqui só uma vez. Já para os rondonienses e amazonenses a situação é outra: para cada 20 vezes que falam de Tambaqui, eles falam uma única vez de Tilápia.

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O coronavírus da pecuária

O coronavírus da pecuária

As mortes humanas já são 3.831, mas quando você ouvir este podcast o número será maior. E na pecuária? Estima-se que a peste suína africana causou a more ou o abate sanitário de metade do rebanho suíno mundial: mais de 400 milhões de porcos. Como se não fosse bastante, no finalzinho de janeiro, o retorno de diferentes cepas da gripe aviária causou a morte ou abate sanitário de mais de 100 mil aves na China. A gripe aviária tem potencial para ser outro imenso problema de sanidade animal global.

Os humanos, os suínos e as aves já estão afetados. E o boi? Vai sair ileso?

Você está na Agroconversa com Petterson Vale. No papo de hoje, eu aproveito o momento para dizer que precisamos ficar mais atentos à defesa sanitária da bovinocultura, pois ela está ameaçada.

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Será o Tambaqui o novo boi?

Será o Tambaqui o novo boi?



Ontem eu tive uma surpresa que me deixou mudo como um peixe: ouvi dois cientistas de altíssimo calibre dizerem que o futuro da alimentação humana depende da produção de peixes em cativeiro. Eles foram categoricos: a aquacultura é uma fonte de proteína animal altamente promissora.

Confesso que fiquei feliz. Concluí que o trabalho que tenho feito nos últimos meses, de gerar informação robusta e precisa sobre a piscicultura, tem futuro!

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As três pecuárias do Brasil

Agroconversa

[O texto abaixo inaugura o podcast Agroconversa, em que divulgarei semanalmente conversas sobre o agronegócio, no Brasil e no mundo, usando dados concretos e um ponto de vista independente. Para ouvir o podcast, clique aqui].

Quanto mais se fala da pecuária brasileira, mais as ideias distorcidas se multiplicam. Onde está o erro? É preciso entender que o Brasil não possui uma pecuária, mas três: a exportadora, a de fronteira e a familiar. Qualquer avaliação que não leve em conta a diferença entre esses três sistemas está fadada ao erro.

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Quatro elementos para o debate sobre Amazônia

A Amazônia não é o pulmão do mundo.

Cartaz da direita: “Você realmente gosta mais de hambúrguers do que de oxigênio?”
Foto: AFP / Isabel Infantes

Rica em biodiversidade, sim; um grande estoque de carbono, sim; produtora de oxigênio para o planeta, não. É o que indica a mais elementar ciência florestal: florestas em clímax consomem o oxigênio que produzem.

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Em defesa da carne. Por uma pecuária sustentável

O manifesto de uma advogada ambiental vegetariana transformada em pecuarista

Chelsea Green Publishing é uma editora americana que publica livros sobre ‘viver sustentável’ e causas progressistas.

O livro “Defending Beef” (2014, 288 páginas) teve sucesso ao apostar em um ponto de vista inusitado sobre um dos temas mais caros ao viver sustentável. Foi muito bem recebido por três grupos de leitores: ativistas da carne, ambientalistas curiosos, e acadêmicos principalmente das áreas de agronomia e agroecologia.

A ideia de que o consumo de carne de animais criados a pasto é parte da solução — não do problema — do desenvolvimento sustentável vai contra a narrativa que se tornou convencional, que associa todas as pecuárias a problemas ambientais.

Nicolette Hahn constrói um novo entendimento sobre a produção de alimentos e argumenta que a pecuária bem feita é que deve crescer:

“It’s the how, not the cow”

“O problema não é a carne, mas qual carne”

No Brasil, um ponto de vista tão provocador jamais foi defendido formalmente, muito menos com uma narrativa fluida e rigorosa. A visão do livro se alinha com a percepção de uma grande parte da sociedade brasileira de que o vegetarianismo não é o caminho.

“Usando uma potente mistura de dados científicos e teorias neotéricas sobre saúde e o meio ambiente, Niman argumenta de forma convincente que o gado criado a pasto deve ser parte de uma cultura de alimentação sustentável” (The Wall Street Journal)

“O seu ‘manifesto’ é por um sistema alimentar revolucionário—em que os bois são necessários… Uma após a outra Hahn Niman espeta as vacas sagradas da ortodoxia anti-carne” (The Los Angeles Times)

Piketty e a desigualdade no Brasil

Thomas Piketty acha que a desigualdade no Brasil não caiu. Ele tem usado análises de um trio de sociólogos / economistas brasileiros para dizer isso. Segundo eles, os dados de imposto de renda de pessoas físicas (DIRPF) são muito melhores do que a PNAD para captar as altas rendas, que seriam subdeclaradas na PNAD.

O artigo é de Medeiros et al. (2014). Eles usam a PNAD para os 9 primeiros decis da distribuição, e a DIRPF para o último decil. A conclusão é que a desigualdade aumentou ou pelo menos ficou estável entre 2006 e 2012.

Mas tem sentido usar o IR? É sabido que o Leão tem atacado com muito mais força nos últimos anos, de forma que as pessoas com rendas maiores tiveram incentivos crescentes para declarar. Se as faixas com rendas baixas e médias – onde há maior proporção de retenção na fonte, por exemplo – tiverem continuado declarando razoavelmente da mesma maneira, mas os mais ricos tiverem subdeclarado cada vez menos, então não faz sentido usar os dados do IR, principalmente no decil de cima. A análise endossada por Piketty só tem sentido se todas as faixas de renda tiverem subdeclarado aproximadamente na mesma medida ao longo do tempo.

Só que eu não acredito nisso. Por uma questão de eficiência, a Receita vai fiscalizar mais os mais ricos. Se o último decil da distribuição tiver declarado uma % cada vez maior da renda ao longo dos anos, tudo o que Medeiros e colegas estariam capturando seria a mudança nas regras do jogo. Curiosamente, eles reconhecem isso no artigo.

Crise econômica e meio ambiente

[Texto preparado para o Boletim Econômico da Rádio USP]

A crise pode afetar a nossa relação com o meio ambiente. Uma forma de explorar este assunto é pensar no comportamento do indivíduo enquanto consumidor. Será que a queda da renda vai afetar a procura por todos os produtos igualmente, ou os produtos ditos “verdes” serão poupados? O indivíduo vai continuar priorizando o meio ambiente, mesmo estando desempregado?

De imediato, podemos pensar em dois movimentos contrários. Por um lado, o orçamento em queda pode estimular os consumidores a reduzirem o uso do combustível, da eletricidade, da água, e de bens não essenciais como cerveja importada, por exemplo. Esse efeito seria benéfico para o meio ambiente. No entanto, os consumidores também podem ser levados a optar por produtos mais poluentes e mais baratos: geladeiras usadas ao invés de novas, automóveis mais antigos e menos eficientes, e produtos que agridem o meio ambiente e que custam menos. Já este outro efeito prejudicaria o meio ambiente, de forma que o efeito total permanece ambíguo.

Mas pode ser que haja algo mais. Continue lendo “Crise econômica e meio ambiente”