Quatro elementos para o debate sobre Amazônia

A Amazônia não é o pulmão do mundo.

Cartaz da direita: “Você realmente gosta mais de hambúrguers do que de oxigênio?”
Foto: AFP / Isabel Infantes

Rica em biodiversidade, sim; um grande estoque de carbono, sim; produtora de oxigênio para o planeta, não. É o que indica a mais elementar ciência florestal: florestas em clímax consomem o oxigênio que produzem.

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Em defesa da carne. Por uma pecuária sustentável

O manifesto de uma advogada ambiental vegetariana transformada em pecuarista

Chelsea Green Publishing é uma editora americana que publica livros sobre ‘viver sustentável’ e causas progressistas.

O livro “Defending Beef” (2014, 288 páginas) teve sucesso ao apostar em um ponto de vista inusitado sobre um dos temas mais caros ao viver sustentável. Foi muito bem recebido por três grupos de leitores: ativistas da carne, ambientalistas curiosos, e acadêmicos principalmente das áreas de agronomia e agroecologia.

A ideia de que o consumo de carne de animais criados a pasto é parte da solução — não do problema — do desenvolvimento sustentável vai contra a narrativa que se tornou convencional, que associa todas as pecuárias a problemas ambientais.

Nicolette Hahn constrói um novo entendimento sobre a produção de alimentos e argumenta que a pecuária bem feita é que deve crescer:

“It’s the how, not the cow”

“O problema não é a carne, mas qual carne”

No Brasil, um ponto de vista tão provocador jamais foi defendido formalmente, muito menos com uma narrativa fluida e rigorosa. A visão do livro se alinha com a percepção de uma grande parte da sociedade brasileira de que o vegetarianismo não é o caminho.

“Usando uma potente mistura de dados científicos e teorias neotéricas sobre saúde e o meio ambiente, Niman argumenta de forma convincente que o gado criado a pasto deve ser parte de uma cultura de alimentação sustentável” (The Wall Street Journal)

“O seu ‘manifesto’ é por um sistema alimentar revolucionário—em que os bois são necessários… Uma após a outra Hahn Niman espeta as vacas sagradas da ortodoxia anti-carne” (The Los Angeles Times)

Piketty e a desigualdade no Brasil

Thomas Piketty acha que a desigualdade no Brasil não caiu. Ele tem usado análises de um trio de sociólogos / economistas brasileiros para dizer isso. Segundo eles, os dados de imposto de renda de pessoas físicas (DIRPF) são muito melhores do que a PNAD para captar as altas rendas, que seriam subdeclaradas na PNAD.

O artigo é de Medeiros et al. (2014). Eles usam a PNAD para os 9 primeiros decis da distribuição, e a DIRPF para o último decil. A conclusão é que a desigualdade aumentou ou pelo menos ficou estável entre 2006 e 2012.

Mas tem sentido usar o IR? É sabido que o Leão tem atacado com muito mais força nos últimos anos, de forma que as pessoas com rendas maiores tiveram incentivos crescentes para declarar. Se as faixas com rendas baixas e médias – onde há maior proporção de retenção na fonte, por exemplo – tiverem continuado declarando razoavelmente da mesma maneira, mas os mais ricos tiverem subdeclarado cada vez menos, então não faz sentido usar os dados do IR, principalmente no decil de cima. A análise endossada por Piketty só tem sentido se todas as faixas de renda tiverem subdeclarado aproximadamente na mesma medida ao longo do tempo.

Só que eu não acredito nisso. Por uma questão de eficiência, a Receita vai fiscalizar mais os mais ricos. Se o último decil da distribuição tiver declarado uma % cada vez maior da renda ao longo dos anos, tudo o que Medeiros e colegas estariam capturando seria a mudança nas regras do jogo. Curiosamente, eles reconhecem isso no artigo.

Crise econômica e meio ambiente

[Texto preparado para o Boletim Econômico da Rádio USP]

A crise pode afetar a nossa relação com o meio ambiente. Uma forma de explorar este assunto é pensar no comportamento do indivíduo enquanto consumidor. Será que a queda da renda vai afetar a procura por todos os produtos igualmente, ou os produtos ditos “verdes” serão poupados? O indivíduo vai continuar priorizando o meio ambiente, mesmo estando desempregado?

De imediato, podemos pensar em dois movimentos contrários. Por um lado, o orçamento em queda pode estimular os consumidores a reduzirem o uso do combustível, da eletricidade, da água, e de bens não essenciais como cerveja importada, por exemplo. Esse efeito seria benéfico para o meio ambiente. No entanto, os consumidores também podem ser levados a optar por produtos mais poluentes e mais baratos: geladeiras usadas ao invés de novas, automóveis mais antigos e menos eficientes, e produtos que agridem o meio ambiente e que custam menos. Já este outro efeito prejudicaria o meio ambiente, de forma que o efeito total permanece ambíguo.

Mas pode ser que haja algo mais. Continue lendo “Crise econômica e meio ambiente”

O que realmente interessa nas 31 páginas do acordo de Paris?

“Em comparação com o que poderia ter sido, é um milagre. Em comparação com o que deveria ter sido, é um desastre”.

Foi com essas eficazes palavras que George Monbiot, colunista do The Guardian, resumiu as 31 páginas do texto assinado em 12 de dezembro. Mas pasmem: a constatação não é nenhuma originalidade de Monbiot, pois aparece no parágrafo 17, página 3, do texto aprovado em Paris.

Como assim? Os negociadores admitiram dentro do próprio texto que o objetivo acordado é ambicioso demais e que eles ainda não têm os meios para atingi-lo? Sim. E isso é quase tudo o que realmente interessa no acordo de Paris. Continue lendo “O que realmente interessa nas 31 páginas do acordo de Paris?”

A COP-21 não muda o jogo

[Texto publicado na Folha de São Paulo, Tendências e Debates]

Visualize a seguinte cena. Um grupo de pessoas deve preparar uma refeição coletiva. Há ricos e pobres, jovens e velhos. Uns estão famintos, outros exigem que o cardápio não inclua glúten, ou carne, ou leite, e muitos permanecem sentados – talheres à mão – a cochichar.
É o que se vê nas negociações de tratados ambientais internacionais: quanto maior e mais heterogêneo o grupo, menos chance de um resultado satisfatório. Continue lendo “A COP-21 não muda o jogo”

Guiando a alimentação dos brasileiros

Duas versões de “guias alimentares para a população brasileira”, ambas produzidas pelo Ministério da Saúde. Uma versão é longa, com mais de cem páginas, e tem uma perspectiva que eu julgo corretíssima: é baseada nos alimentos e pratos que a população brasileira utiliza tradicionalmente. Além do mais, não tenta transformar a alimentação em receita de bolo: “coma meia banana, duas colheres de chá de mel, e uma folha e meia de alface..”. Não, essa versão longa do guia apresenta as combinações alimentares que dão certo, insiste na necessidades de se priorizarem alimentos in natura, mas não tenta ser prescritiva ao extremo.

Versão longa:
http://www.foodpolitics.com/…/Guia-Alimentar-para-a-pop-bra…

Versão curta:
http://189.28.128.100/nutr…/…/geral/guia_alimentar_bolso.pdf

Já a outra versão, que seria um guia de bolso, cai no erro do prescricionismo exagerado. Quando o leitor se depara com uma receitinha que diz que tem que comer frutas no mínimo três vezes ao dia, que tem de ter verduras e legumes em todas as refeições, e fixações do gênero, ele desiste. E o faz sem se dar conta que se alimentar de forma balanceada está bem mais perto do seu velho e conhecido arroz-e-feijão do que parece.

Recomendo fortemente a leitura da versão completa do guia. Recomendo, inclusive, a sua impressão e distribuição aos quatro cantos. Ela é de muito fácil leitura, super bem ilustrada, e traz uma mensagem que tem potencial para realmente ajudar as pessoas a colocarem as coisas nos eixos.

O preço-Brasil

O diferencial de preços entre o Brasil e muitos outros países é velho conhecido de todos. Qualquer produto “made in Brazil” tem muito provavelmente um similar produzido e vendido no resto do mundo por bem menos. A explicação clássica é o chamado custo Brasil, que inclui carga tributária mais pesada, burocracia maior, infraestrutura pior. No entanto, há situações que escapam a essa explicação. Continue lendo “O preço-Brasil”